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Os Falcões Portugueses de Cabo Verde



Ficha Técnica

Número

EXPO/FAL/001

Designação

Os Falcões Portugueses de Cabo Verde

Descrição

Os Falcões Portugueses de Cabo Verde foi uma associação fundada na cidade de Mindelo, ilha de S. Vicente, com os estatutos aprovados por um alvará, de 23/10/1934.
Eram mais conhecidos pela designação Sokols, graças à influência do movimento dos Sokols da Checoslováquia (Sokol, palavra checa e eslovaca que significa Falcão). No ensaio Falcões (Sokols) de Cabo Verde: história e legado, Jan Klíma, Professor da Universidade de Hradec Králové refere-se às origens do movimento na Checoslováquia: “Miroslav Tyrš, admirador do ideal grego da kalokagathia * e Jindřich Fügner criaram a União Praguense de Cultura Física” (1862) com o objectivo da “elevação do nível físico, espiritual e moral da nação checa, educação para um comportamento honesto em favor da democracia, amor à terra natal e veneração para com o legado espiritual nacional” (2008, p. 1).
Henrique Ferreira Lima, na brochura Relações entre Portugal e a Tchecoeslováquia, refere-se ao “espírito de independência que, durante a Guerra Mundial, estimulou as legiões tchecoeslovacas, que combateram, na fronteira francesa e italiana, contra a Áustria e a Alemanha, ao lado dos Aliados” (1936, p. 22) e cita o Diário de Notícias, de 30/7/1935, que alude a “uma grande parada dos sokols portugueses, em 16 de Julho, em São Vicente de Cabo Verde”. No editorial do Boletim dos Falcões de Cabo Verde reconhece-se a admiração pelos Sokols da Checosloáquia, mentores do movimento associativo, que se desenvolveu em Mindelo nos anos trinta do século XX (consultar documento em anexo).
Muitos dos associados eram estudantes. Segundo os Estatutos (23/10/1934), tinham “categoria de sub-oficiais os primeiranistas e secundanistas dos Liceus (…) e têm categoria de chefes os membros da Associação que forem alunos de 3.ª e 4.ª classes de instrução primária” (idem). Durante a crise provocada pela extinção do Liceu Gil Eanes (1937), os Falcões tiverem um papel atuante em defesa da casa de educação. Com o título “Restabelecimento do Liceu”, o Notícias de Cabo Verde comunicava que “no dia 28 de Julho, cêrca das 13 horas, explodiram um, dois morteiros… e não foi preciso que continuasse a sua explosão de alegria e festa para quem escreve estas linhas concluir logo: é o liceu que se restabelece […] e o povo saiu todo para a rua […] a Banda dos Falcões com imensa multidão percorria as artérias da cidade, manifestando o júbilo de todas as classes” (15 Agosto 1938). Publicaram o Boletim dos Falcões Portugueses de Cabo Verde (Janeiro e Fevereiro, 1936).

Enquadramento das fotografias patentes na Galeria, realizadas a partir do álbum de fotografias da D. Ivone Ramos e do seu marido, Sr. Manuel Nascimento Ramos [foi membro associados dos Sokols e autor do livro Mindelo d’outrora (2003)]:
Fotos 01: A filiação ideológica do movimento é visivel na fotografia de sub-oficiais e juniores dos Falcões a relizarem exercicios de bandeiras, tendo ao fundo o retrato de Miroslav Tyrš, fundador dos Sokols da Checoslováquia.
Fotos 03: Os Falcões Portugueses de Cabo Verde foram chefiados por Júlio Bento de Oliveira, notável cidadão mindelense (consultar o menú Notas Biográficas).
Fotos 05, 07, 09 e 10: Os Sokols cultivaram a educação física, “ensinavam à juventude da nossa terra o civismo, o cumprimento dos deveres de cidadão para com a terra natal; o respeito pelo seu semelhante, toda a espécie de ginástica e atletismo, desde a barra, argola e trapézio, ao lançamento do dardo, do peso e do disco; ténis, foot-ball, cricket e box; saltos à vara e em altura; corrida de velocidade e de resistência; vela e noções de náutica e de bombeiros; sinais de bandeira, de espelho; manipulação de cordas com destreza e também alfabetização” (Ramos, 2003, p. 54).
Foto 11 e 11a:
O porte físico dos Falcões transmitia os valores do aprumo, da força e da disciplina. Os filiados desfilavam impecáveis nos seus uniformes de “drill branco ou kaki para 1º, 2º e 3º oficiais (…) constituídos por dolman com gravata preta, calças e sapatos da côr do dolman, boné branco com pala de verniz preto, ou boné bivaque da mesma côr do dólman” (estatutos).
Foto 12:
Nesta associação eram admitidas jovens do sexo feminino, denominadas Sokolinas. O jornal Notícias de Cabo Verde publicou uma nota de agradecimento a todos os pais pela “gentileza de assistirem, aos exercícios de suas gentis filhas, às 17 horas, todos os sábados” (25 Agosto 1934) e na conferência sobre “Força e Disciplina”, “o distinto poeta e orador eloquente José Lopes da Silva, saudou muitas meninas [que] fazem parte da Corporação […], flores de ternura e esperança a matizar o soberbo quadro das aspirações poéticas desta instituição” (idem, 15 Fevereiro 1935).
Foto 13:
Dedicavam-se aos desportos náuticos. Participavam na “construção de barcos a vela e a remos na escola de artes e ofícios”; auxiliavam “a aparelhagem dos barcos com os seus alunos”; forneciam “uma sólida instrução aos alunos da sua Secção Náutica de forma a fazer deles oficiais de confiança, ensinando teorias indispensáveis à navegação entre ilhas”; ensinavam “a vida prática do perfeito marinheiro” e dirigiam “o serviço metódico da conservação das embarcações” (estatutos).
Foto 15:
Os Sokols praticavam atividades culturais, música e teatro. O Boletim dos Falcões de Cabo Verde noticiava em Fevereiro de 1936 “Os Falcões Portugueses de S. Vicente brevemente deverão apresentar-se ao público no Palco do Éden-Park, vincando o seu nome pela terceira vez na arte teatral e pela primeira na arte de gimnástica rítmica musicada, cousa nunca vista em Cabo Verde”.
Foto 16:
A cultura baseada nos valores da obediência, da vontade e da autoridade inseria-se no espírito da época, entre as duas guerras mundiais. A fotografia fixou um grupo de jovens falcões fazendo a saudação romana. Henrique Teixeira de Sousa**, que ficcionou a história dos Falcões no livro Capitão de mar e terra recriou a saudação: “trazia-se a mão ao encontro do peito, o bordo do indicador encostadinho mesmo ao coração”, justificando “não era por conseguinte uma saudação nazi ou fascista, mas cordial («ex corde ad cordem», como também explicou o mestre Lucrécio)” (1984, p. 130).
Foto 17:
A municipalidade saudou a colaboração dos Falcões, que concorriam para a educação integral da juventude, pois além de almejar “combater a decadência física do povo”, estabelecia “a conveniência da necessidade social da ordem, disciplina e trabalho” (estatutos). A fotografia regista uma marcha em frente à Câmara Municipal de Mindelo.
Fotos 19, 21, 23 e 24:
Segundo os estatutos, os fundos da associação eram provenientes do Governo e das Câmaras Municipais. Tendo como objetivo “preparar a massa associativa de forma a que os seus elementos possam ser cidadãos úteis à sociedade e aos seu país” (estatutos), cooperavam com o poder politico e com a comunidade.
Fotos 23 e 25:
O centro das atividades dos Sokols foi a cidade de Mindelo. As fotografias testemunham a sua expansão para as ilhas do Fogo e de Santo Antão. Segundo o Boletim dos Falcões (Fevereiro 1936) havia Falcões na ilha de S. Nicolau. O Eco de Cabo Verde (15 de Dezembro de 1934) noticiou a criação da Associação dos Falcões da Praia.
Os Falcões Portugueses de Cabo Verde extinguiram-se no ano 1939. O excessivo protagonismo de uma organização, inspirada em associações patrióticas e cívicas da Checoslováquia, não era compatível com a ordem estabelecida pelo regime do Estado Novo. Com a formalização da Mocidade Portuguesa, no arquipélago (Decreto 29.453, de 17/2/1939), “os membros associados dos Falcões Portugueses de Cabo Verde deveriam “converter-se na Ala nº 2, Afonso de Albuquerque, sob o comando do Capitão Luís Ferreira Pinto, que era também o administrador do concelho de S. Vicente” (Oliveira, 1998, p. 469).
Tal não aconteceu. Extinguiu-se a organização que sonhou com o ideal da kalokagathia (beleza e glória) nas ilhas.

* Palavra grega decomposta em dois elementos: καλός (belos, honrados, nobres) e ἀγαθός (bons, valorosos, justos) (Pereira, 1961).
** Segundo Luís Rendall, os estatutos da associação foram redigidos por Baltasar Lopes da Silva, professor do Liceu de Mindelo e um dos fundadores do Movimento Claridade (Lopes, 2002, p. 92).
*** Henrique Teixeira de Sousa foi membro associado dos Sokols.

Data

1934-1939

Bibliografia

Alvará que aprovou os Estatutos dos Falcões de Cabo Verde, de 23/10/1936.
Boletim dos Falcões de Cabo Verde: Publicação de carácter científico e literário. Dir. Falcões de S. Vicente [1 (Janeiro 1936) a 2 (Fevereiro 1936)]. S. Vicente: Sociedade de Tipografia e Publicidade, Limitada.
Boletim Oficial de Cabo Verde nº 52, de 29/12/1936.
Boletim Oficial de Cabo Verde nº 10, de 11 de Março de 1939.
Carvalho, Maria Adriana Sousa. Na procura de novos temas de História contemporânea: os “Sokols” ou Falcões Portugueses de Cabo Verde (1936-1939). In Estudos do Século XX – CEIS 20, nº 11. 2011. Klíma, Jan (2002). Sokols de Cabo Verde nos anos trinta do século XX. Ibero-Americana Pragensia, Ano XXXVI, Praga, pp. 185-198. Klíma, Jan (2005). Cabo Verde trinta anos após a independência. Ibero-Americana Pragensia, Ano XXXIX, Praga, pp. 217-226.
Klíma, Jan (2008). Os Sokols (Falcões) de Cabo Verde: História e legado. (Documento manuscrito inédito cedido pelo autor).
Lima, Henrique de Campos Ferreira (1936). Relações entre Portugal e a Tchecoeslováquia. Vila Nova de Famalicão: Tip. Minerva de Gaspar Pinto de Sousa e Irmão.
Lopes, José Vicente (2002) [1996]. Cabo Verde: Os bastidores da independência. Praia: Spleen Edições. Notícias de Cabo Verde nº 98, de 25 de Agosto de 1934. Notícias de Cabo Verde nº 110, de 15 de Fevereiro de 1936.
Notícias de Cabo Verde nº 174, de 15 de Agosto de 1938.
O Eco de Cabo Verde nº 29, de 15 de Dezembro de 1934.
Oliveira, João Nobre de (1998). A imprensa cabo-verdiana (1820-1975). Macau: Fundação Macau. Pereira, Isidro (1961). Dicionário Grego-Português e Português-Grego. Porto: Apostolado da Imprensa. Ramos, Manuel Nascimento (2003). Mindelo d’ outrora (2ª ed.). Mindelo: Edição do Autor.
Sousa, Henrique Teixeira de (1984). Capitão de mar e terra. Lisboa: Publicações Europa - América.

Investigador

Maria Adriana Sousa Carvalho

Observações

As legendas das fotografias, cujas cópias nos foram cedidas pela esposa do Sr. Manuel Nascimento Ramos, reproduzem as anotações manuscritas no verso das fotografias.

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